Maricá/RJ,

África de todas as cores, sons e ... sabores




A luz forte da bela manhã de outono e o barulho do mar batendo vigoroso na praia fizeram-me lembrar de um tempo que não vivi e d’uma viagem que não fiz. Paradoxo? Com toda certeza.
Sonho ou imaginação não me importa, mas guardo comigo a lembrança do amanhecer dourado nas savanas, das flores e espinhos das rubras acácias, do tom acinzentado dos elefantes que, guiados pela matriarca, refazem o caminho percorrido a séculos na eterna busca de alimento e água. Lembro-me ainda do tom entre o dourado e o avermelhado das leoas ensinando os seus filhotes a caçar, da corrida desenfreada dos gnus em fuga, das palancas, dos bisões, dos macacos nas florestas, dos pássaros multicoloridos soltando os mais diversos sons. Uma verdadeira orquestra.
O coração bate mais forte ao reconhecer a discreta altivez do olhar e do porte do jovem quilengue que os olhos atentos e os traços suaves e precisos de Francisco Amorim captaram com perfeição em sua aquarela. Recordo as mulheres envoltas em seus panos coloridos, os filhos presos às suas costas, sorrisos plenos de dentes alvos mostrando a alegria que é a maternidade para a mulher africana, pele negra luzidia, braços ao mesmo tempo suaves e fortes no manejo do pilão transformando grãos em alimentos. Navego pelo Cuanza, observo oleiras no Dundo, rendo preito às Ianda (espíritos das águas) do rio Dande, na província do Bengo – norte de Angola.
Vejo o menino moçambicano jogando para o alto o seu dente-de-leite recém caído, devolvendo-o a Nzambi pois já não precisa dele.
Começa a entardecer e o céu, até então de um azul deslumbrante, vai ficando rubro no horizonte, onde o sol se põe, para que o negro da noite assuma o seu lugar. Mas a noite africana não perde o brilho; dieji, tetembua e tetembuka (lua, estrela e pirilampo) não permitem.
Os sons das noites africanas me soam conhecidos, os batuques, as cantigas, muitas palavras das línguas tradicionais me reportam ao Brasil.
Os sabores... o dendê, a pimenta, as favas de cheiro...
Onde fui buscar tantas lembranças? Talvez em minhas memórias ancestrais porque tenho o orgulho e a sorte de ser, como todo brasileiro, produto da mistura de todas as cores, todas as etnias, todas as culturas que formam o nosso país.
Reconhecer e valorizar as raízes faz pisar mais firme o solo.

Nádia P. Chaia (Sidewí) – Pesquisadora de Cultura Afro; Africanidade e temáticas Afro-Brasileiras.

QUILENGUE – Aquarela de Francisco Gomes de Amorim

“A leitura é um dos meios mais eficazes de desenvolvimento sistemático da linguagem e da personalidade”. Richard Bamberger – “Como incentivar a leitura” – São Paulo/SP. Cultrix/MEC. 1977

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