Maricá/RJ,

Canteiro Literário

Junho de 2008


Canteiro Literário





CIDADES

Raquel Naveira

“Maior felicidade que amar uma mulher, amor de longo olhar e presente saudade, amor muito maior, é amar uma cidade!”, já nos explicava o poeta Dante Milano.
Eleger uma cidade como sua. Senti-la bater dentro do peito. Deslocar-se nela como um vento, um fantasma, um observador. Fazer dela a paisagem, o cenário, o palco, o cosmos, o centro do mundo, o resumo do império.
Campo Grande, sul de Mato Grosso, é a cidade onde nasci, me criei, casei, tive filhos, sofri, sonhei. Ali entreguei o melhor sangue, o sangue de minha juventude, a várias gerações, no ideal do magistério. Ali foi o útero no qual fui gestada por cinqüenta anos e que depois me expeliu para o mundo, por todos os séculos.
Como poeta, antena do inconsciente coletivo que capta os anseios, os desejos e as angústias do povo, transformei-me em porta-voz de minha cidade. Cantei suas praças, seus caminhos, suas fontes, seus relógios, suas feiras, suas construções, sua gente. Seu cotidiano, seu passado e, pela visão poética, abri caminhos para o seu futuro. Hoje Campo Grande é uma estrela alaranjada no céu das minhas lembranças do cerrado.
Corro agora entre grandes cidades: Rio de Janeiro, com seus becos e cheiro de maresia; São Paulo, mosaico de diversidade humana e Curitiba, cristalina entre pinhais. Estradas, luzes, túneis que se abrem e se fecham, conduzindo-me a livros, filhos, neta. Recordações e expectativas borbulham. Obras brotam de mim. Estou viva, em qualquer cidade.
O editor e poeta Raimundo Gadelha escreveu-me: “Vivem dentro de mim grandes cidades, sangüínea intimidade que de todo desconheço e como todas as cidades crescem desordenadamente sempre em busca de vazão para este outro mundo aqui fora”
É assim que me sinto, as cidades todas crescendo à minha volta e vazando para fora. Mas lá no meu ser interior há uma concha inicial, uma morada imperecível em que me escondo como um molusco num caracol, como uma alma num castelo.
O homem é um viajante entre duas cidades: a vida é uma passagem da Cidade de baixo à de cima. Santo Agostinho, em seu livro A Cidade de Deus, afirmou que a vida se desenrola entre dois amores, entre duas forças: uma terrestre e outra espiritual e celeste. Filosofou ele: “Dois amores fundaram, pois, duas cidades, a saber: o amor próprio, levado ao desprezo a Deus, a terrena; o amor a Deus, levado ao desprezo de si próprio, a celestial.”
No Antigo Testamento, as cidades são descritas como pessoas, Jerusalém, por exemplo, é a Mãe. Babilônia, nome simbólico de Roma, é a prostituta. O Rio de Janeiro é a minha Babilônia, penso, enquanto observo as ondas brancas e negras das pedras de Copacabana. Aqui hei de edificar casas, plantar em jardins suspensos e colher frutos. É também a cidade de Corinto para onde vim, como Paulo, trabalhar com meus colegas de ofício, os armadores de tendas. Coloridas e frágeis tendas de palavras, que sobem como balões. É por isso que não temo, nem me calo, porque ninguém me fará mal. Tenho muitos companheiros nesta cidade.
Que as cidades terrenas, por onde passo, atraiam benção sobre minha vida de andarilha! De peregrina para a Cidade do Céu.

Raquel Naveira - É formada em Direito e Letras. Exerce o magistério na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Já publicou inúmeros livros, dentre eles, vários de poemas; uma trilogia na linha religiosa e um infanto-juvenil.

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