Maricá/RJ,

África de todas as cores, sons e... sabores




BEBER O MORTO
Expressão estranha para costume antigo

Nádia Chaia (Sidewi)




Antigamente, antes que as cidades crescessem tanto, que houvesse luz elétrica por toda parte, quando os defuntos eram velados em casa, na sala, caixão sobre a mesa de jantar, uma vela acesa em cada canto (não as luminárias em forma de vela de hoje em dia), pés voltados para a porta da rua, havia um costume que hoje só muito raramente encontramos e assim mesmo no interior, no sertão desse Brasil imenso: - beber o morto.
Quanto maior fosse a posição social do finado, mais aparato teria que ter o seu velório. Assim, não havia mãos a medir para dar conta de salgadinhos, bolos, cafés e licores servidos a todos os que participavam da cerimônia. Carpideiras eram contratadas para chorar copiosamente enquanto exaltavam as muitas qualidades do morto, mesmo que não fossem tantas assim. O ritual durava cerca de 24 horas.
Nas famílias um pouco menos abastadas serviam café, bolo e broa de milho. Os licores eram substituídos pela pinga de alambique e cortavam-se as despesas com as carpideiras. O pranteamento ficava mesmo por conta dos parentes e amigos.
Nas classes mais pobres, que em geral viviam nas periferias ou nos morros em habitações de pouco ou nenhum conforto, o velório era chamado de “gurufim” (expressão que não sei traduzir) e, além do café normalmente direcionado para as mulheres, servia-se alguma coisa de sal (de acordo com as possibilidades da família) e cachaça de litro. Aqueles que adormeciam, vencidos pelo cansaço e pela cachaça, eram acordados pelos demais com o aviso: “cuidado, fulano (diziam o nome do morto) vem te buscar”. Os participantes do “gurufim” podiam não saber porque o faziam, mas, ao acordar quem adormecia, repetiam procedimentos de algumas culturas tradicionais africanas, onde não era permitido dormir durante os ritos funerais.
No interior era comum convidar as pessoas para “beber o morto”, ou seja, tomar uma bebida, geralmente pinga, em memória do falecido.
De comum aos quatro tipos de velório mencionados encontramos o hábito de serem servidas bebidas alcoólicas. O que passava e provavelmente ainda passa despercebido é o fato de ser essa uma herança africana.
Entre alguns povos bantu, em sua cultura tradicional, quando morria alguém da comunidade, fazia parte dos ritos funerais a reunião das pessoas da aldeia, de parentes que morassem em outros lugares, amigos, etc em torno do defunto e ali fazerem uma refeição comunitária e tomarem marufo (espécie de vinho) . O último grande rito de passagem é o funeral e quanto maior a importância do morto dentro do grupo, mais complexos e longos os ritos, estendendo-se por dias. Neste período havia uma série de tabus a serem seguidos, dentre eles o de não pronunciar o nome do morto e não manter relações sexuais. Estas só seriam permitidas quando terminassem todos os ritos funerais e após um banho lustral.. Como acreditavam que as almas dos mortos habitavam um mundo paralelo no interior da terra, eram colocadas oferendas de alimentos em volta das sepulturas vertidos nove goles de bebida no chão, para satisfazê-las.
É muito comum, em alguns pontos do Brasil, ver-se alguém jogar um pouco de bebida no chão, antes de ingeri-la. Mesmo muitas vezes não sabendo o porque do gesto, a herança africana fala mais alto.
Ainda hoje, quando morre um membro de um grupo de culto afro-brasileiro, é comum após o enterro, as pessoas se juntarem em um bar para tomar um copo de cerveja, vertendo antes um gole no chão, para “lavar o pé”, ou seja, afastar a morte de seus caminhos “bebendo o morto”. Vale lembrar também que, dependendo da graduação e importância do finado dentro do culto, os ritos funerais podem levar dias e não se pode deixar de oferecer a comida e a bebida.
É a África viva no Brasil.

Nádia P. Chaia (Sidewí) – Pesquisadora de Cultura Afro; Africanidade e temáticas Afro-Brasileiras.

Ilustração: Luis Gustavo, 17 anos,natural de Maricá/RJ., estudante de pré-vestibular. Concluiu o 2º grau no Centro Educacional Joana Benedicta Rangel, Maricá/RJ. Aluno de Mestre Dico, conhecido Mestre de Capoeira, de Maricá, atualmente é instrutor do Espaço Cultural Porta Aberta. É ex-morador do bairro do Caju, atualmente reside no Centro da cidade de Maricá/RJ.


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