Maricá/RJ,

Canteiro Literário

Setembro de 2008
Canteiro Literário





ABRAÇO

Renato Defanti Ferreira

Enquanto andava pelas ruas, fiquei imaginando como seria a vida se não existissem as mulheres, me fiz esta pergunta pelo simples motivo de que eram maioria esmagadora em todos os lugares para onde eu quisesse olhar. Faço prioridade então afirmar que acho estas criaturas algo que mais se aproxima de uma total perfeição, nas mulheres se esconde a verdadeira intenção do criador em tornar este mundo belo, deste modo, quero destacar que estava no interior de um posto de saúde, esperando minha vez num daqueles banquinhos compridos feitos de tábua de pinho ou cedrinho.
Eu havia pegado um pequeno pedaço de papel, que eles lá tentavam me convencer que se tratava de uma senha e minha imaginação não muito fértil na ocasião fazia-me revistar aquele número (79) mais de trinta vezes por minuto, eram escritos pelos próprios funcionários do posto, por isso fiquei estupidamente gastando meus olhos em apreciar as marcas da caneta, a tortura permanente e uma ligeira falta de padrão algum. A parede quente amparava minhas costas que fingiam se aconchegar, trazendo-me uma sensação quase que gostosa.
Veio ao corredor uma mulher que não deveria ter mais que quarenta anos, nos braços uma pequena menina de cabelos negros, encaracolados como os dos anjos que vemos nas folhinhas doadas pela igreja.
Embora um não muito forte sono me ocorresse, avistei antes mesmo que a mulher se sentasse ao meu lado o pequeno papel, a senha que organizava as chamadas, o seu número: (123).
Sentou-se ao meu lado com jeito de imenso cansaço, provavelmente a noite tinha sido uma daquelas bastante longas, a garotinha me parecia desmaiada em seu colo, estava mole perante o calor, eu conseguia sentir o calor daquela pele juvenil até mesmo sem tocá-la, o meu diagnóstico de tudo que sabia na vida era que ali se instalava uma terrível gripe ou coisa assim. O corpo pequenino então se mexeu agarrando-se ao da mãe, os braços de quem é mãe creio eu são totalmente diferentes dos nossos, pessoas comuns. Recostando-a ao peito, vi a mulher abraçar o anjinho que caía de doente, o que via valia bem mais do que qualquer número, mais que o meu (79), um abraço sincero e curador, sem pretensões que não fosse levar a paz, senti-me lisonjeado por tal momento, pela forma e dedicação de mulher, de maneira que pude perceber que tudo que pudesse ter de errado comigo poderia ser curado por um abraço como aquele, lembrei-me que também gostava de abraços e como não havia ninguém para me abraçar, tomei aquele como se fosse um pouquinho meu também.
Uma senhora adentrou o corredor e espalhou aos quatro cantos:
- Setenta e nove! Setenta e nove!
Fiz minha visão interior da vida e da necessidade de um amor daquele, do amor de uma mãe para com um filho, nunca antes estive tão perto de descobrir o motivo pelo qual é dado à mulher o poder de ser mãe e desenvolver outro ser em si própria, somente mesmo as mulheres poderiam ser mãe.
- Vamos, senhora! É a senhora.
Levei a mulher para o consultório e dei-lhe a vez que o (79) me proporcionava, antes que esta quisesse me agradecer e começar a dizer alguma coisa, fiz gestos de que não precisava, para minha surpresa ela se aproximou e para minha grande alegria era a minha vez de ser abraçado, deixei-a com intensa satisfação pelo que havia feito, porém, trazia comigo o número (123) que havia ganhado como numa troca. No corredor corri todos rapidamente sobre o banquinho comprido, escolhi um senhor que havia acabado de chegar, bati em seu ombro e passei-lhe o número, me olhou não demorando a perguntar:
- Não vai precisar?
- Não, senhor – respondi dizendo que já havia sido curado.
Durante mais de um mês, mantive em mim o deslumbramento de um maravilhoso e sensacional abraço, sem desprezar a gigantesca sinceridade de um sorriso.

Renato Defanti Ferreira - nasceu em São Gonçalo, em 26 de maio de 1980, reside em Maricá há mais de 17 anos, concluiu Curso Superior em Letras Português/Inglês pela Universidade Estácio de Sá, atualmente trabalha no Condomínio do Edifício Elisa, na área administrativa. É autor de diversos textos e livros.

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