Maricá/RJ,

"EM BUSCA DO SAGRADO, O RESPEITO À ANCESTRALIDADE"


Pontos do Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, o Cais do Valongo, o Instituto dos Pretos Novos (que abriga o Cemitério dos Pretos Novos, descoberto em 1996) e a Pedra do Sal receberam uma visita especial no dia 11 de maio. Mãe Beata, Mãe Edelzuita e Mãe Celina, autoridades em religiões de matriz africana, foram convidadas pelo grupo de trabalho que estrutura o circuito da Região Portuária, coordenado pela Subsecretaria do Patrimônio Cultural, para fazer uma leitura energética desses locais marcados pela ancestralidade. As líderes religiosas vão identificar pontos de sagrado e definir aspectos simbólicos envolvidos nesses espaços do chamado Complexo do Valongo. Fato inusitado na administração pública, o resultado desse trabalho de investigação será entregue ao grupo nos próximos dias.


Washington Fajardo, subsecretário de Patrimônio, garantiu que as sugestões das líderes religiosas serão consideradas no projeto urbanístico. "A preocupação da prefeitura não se restringe aos aspectos arqueológicos ou históricos, mas também levam em conta o sagrado. Uma recomendação de Mãe Beata, Mãe Edelzuita e Mãe Celina resolveu um debate técnico arrastado há meses por arquitetos, arqueólogos e historiadores da equipe em minutos. A dúvida era: como cobrir as janelas arqueológicas que expõem as ossadas do Cemitério dos Pretos Novos? Segundo elas, uma forma de pirâmide em vidro, prisma regular e simbolismo associado a boas energias", destacou Fajardo. "O projeto original de infraestrutura do Porto Maravilha foi adequado para que o Cais do Valongo, um dos pontos do circuito, se transforme em memorial a céu aberto", assegurou Alberto Gomes Silva, coordenador dos programas Porto Maravilha Cidadão e Porto Maravilha e Cultural. 

A sugestão de "escanear" a região foi do professor Rubem Confete, fundador do Centro Cultural Pequena África. Ele lembrou outras experiências urbanísticas que não levaram em conta a ancestralidade e os pontos de sagrado. "A ajuda das mães pretende proteger essas áreas para evitar o ?efeito Praça XI? ou 'efeito Pelourinho', áreas públicas que não teriam recebido a atenção devida sob o aspecto energético", analisou Confete. Muitos atribuem problemas na área (violência, por exemplo) à falta de consideração aos aspectos energéticos.

Voz dos ancestrais
Primeiro ponto do roteiro das Mães de Santo, o Instituto Pretos Novos fica na Rua Pedro Ernesto 34, na Gamboa, e abriga o Cemitério dos Pretos Novos. Quando o mercado de escravos foi transferido da Praça XV para o Cais do Valongo, houve mudança também na localização do cemitério de "pretos novos" - como eram chamados os africanos escravizados ainda não vendidos - que deixou o Largo de Santa Rita e migrou para o Caminho da Gamboa. Quando não resistiam à crueldade das condições da viagem da África à América, os corpos eram jogados ao mar. Se chegavam doentes e só morriam em terras brasileiras, eles eram enterrados em valas, sem túmulos ou caixão. Pesquisas constataram que os ossos eram triturados para acomodar o maior número de corpos.Esse sítio arqueológico foi encoberto desde o século XIX e só veio & agrave; tona em 1996, quando moradores da casa em que hoje funciona o instituto faziam sondagens de solo para obras e se depararam com ossos humanos triturados. Arqueólogos foram designados para pesquisar o local e coletaram fragmentos humanos misturados a outros tipos de vestígios (de animais e lixo).

Ao detalhar aspectos históricos, o arqueólogo coordenador dessa pesquisa, Reinaldo Tavares, emocionou as líderes religiosas. "Encontramos aqui restos de alimento, telha, louça, ferro e ossos de animais. Isso nos deixou muito perplexos, no primeiro momento, porque percebemos que, além dos restos humanos, o Cemitério dos Pretos Novos recebia o lixo urbano da cidade", ressaltou. A sugestão das Mães de Santo foi a de cobrir com pirâmides de vidro esse marco considerado área de sagrado do circuito, para que não fiquem expostos, mas mantenham visível esse momento da história para visitantes. "Não podemos deixar esse fato esquecido ou encoberto", defendeu a proprietária da casa em que foi encontrado o cemitério, Ana Maria de la Merced Gonzalez.

Relatório com recomendações especiais será enviado ao grupo de trabalho 
A caminhada seguiu para o próximo ponto do circuito, o Cais do Valongo - construído no séc. XVIII, por onde mais de 1 milhão de africanos escravizados chegaram ao Brasil. Durante as obras do Porto Maravilha, ele foi "redescoberto" sob o Cais da Imperatriz - erguido no séc. XIX para receber a princesa Thereza Cristina de Bourboun, que veio da Europa para se casar com o Imperador Dom Pedro II. A prefeitura assegurou que vai manter aparentes as estruturas do cais, aberto à visitação em um memorial. Integrantes do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos dos Negros (Comdedine) acreditam que o Valongo poderá ser reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, em fase de mapeamento de áreas no País.

As Mães de Santo deverão retornar ao Cais do Valongo no dia 18 de maio para prosseguir com o trabalho de reconhecimento das energias. "Nós voltaremos a nos encontrar nos próximos dias para conversar sobre a simbologia. Faremos um relatório para o grupo de trabalho do Circuito Histórico com as nossas sugestões para esse ponto", descreveu Mãe Celina.

O último local visitado foi a Pedra do Sal. Ali o sal era descarregado por africanos escravizados que trabalhavam como carregadores nos cais de atracação e trapiches. Nos degraus escavados na rocha, foram fundados os primeiros ranchos carnavalescos, afoxés e pontos ritualísticos na segunda metade do século XIX. Após o trabalho, sambistas estivadores se reuniam para as rodas de samba nas casas das tias baianas. "As pessoas estão recuperando a energia do espaço por meio das festas, e orixá gosta de festa. Fico muito alegre ao ver os jovens cantando e sambando na Pedra do Sal. O samba, que já foi tão perseguido, agora é celebrado. Chegamos aqui com lágrimas e hoje estamos devolvendo alegrias, sorrisos e confraternização", definiu Rubem Confete, que acompanhou a caminhada das Mães de Santo. 

Circuito histórico e arqueológico da celebração da herança africana

Em 16 de novembro de 2011 foi criado, por meio do Decreto nº 34.803, de 29 de novembro, o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que compreende o Cais do Valongo e da Imperatriz, os Jardins do Valongo, a Pedra do Sal, o Largo do Depósito, o Cemitério dos Pretos Novos (no Instituto Pretos Novos) e o Centro Cultural José Bonifácio.

O decreto também instituiu um grupo de trabalho, sob a coordenação da Subsecretaria de Patrimônio Cultural do município, Secretaria Municipal de Cultura , Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Comdedine, Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp) e Iphan, além de intelectuais e representantes de organizações locais e lideranças como o embaixador Alberto Costa e Silva, Carlos Eugênio Líbano, Rubem Confete, Giovane Harvey e Milton Guran (representante da Unesco que integra equipe responsável pelo mapeamento de locais que representam o período da escravidão).


Texto: Yara Lopes / Fotos: Clarice Barretto

Fonte: Enviado por Penha Santos/IPN

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