Maricá/RJ,

Deem o que é meu por direito


Por Djamila Ribeiro*


Foto retirada do site do GNT, 
créditos: Felipe Costa
Não que isso importe, mas resolvi escrever sobre a coluna de Safatle, de ontem, na Folha de SP. Discordo muito e quero dizer os porquês. Primeiramente, quero dizer que o respeito muito, sem dúvida é um grande intelectual, porém terei a audácia de criticá-lo no que tange ao seu último texto.

Safatle fala, quase que de forma romântica, sobre a questão do lugar de fala, que não deveriam existir lugares determinados e que a voz deve ser algo que todos possam assumir; afirma que é necessário romper com a propriedade do lugar de fala, numa tentativa de criar um pensamento crítico ideal, do sujeito ideal e da voz de ninguém. Por mais bonito que isso possa soar, não passa de abstração, utopia. Mas uma utopia só pode ser verdade se enfrentarmos a realidade a partir do que se é e não de um romantismo ingênuo. E a realidade é que mulheres, sobretudo negras, negros, população lgbtt, foram excluídas historicamente de espaços de poder, consequentemente do direito a fala.

Em seu texto Safatle cita uma história que teria envolvido Angela Davis e Adorno. Nesta, Angela teria falado da necessidade do lugar de fala e Adorno, para contrapô-la, defendido "que a verdadeira crítica é uma fala sem lugar e sem posição, ou ainda, uma fala que destrói seu próprio lugar e sua própria posição". Não tenho conhecimento desse diálogo, o que li sobre esse encontro foi que Marcuse teria encorajado Angela a se ausentar da academia para se dedicar ao ativismo ao cabo que Adorno teria dito para ela não fazer isso; que ela deveria aliar ativismo e academia.( Sobre isso ler "Angela Y. Davis, “Marcuse’s Legacies” (1998), in John Abromeit and W. Mark Cobb, eds., Herbert Marcuse: a critical reader (Routledge, 2004), 46–47.") 

Em 1960, Angela se dedicava ao Panteras Negras e era marxista. O debate sobre lugar de fala veio posteriormente, décadas depois, quando ela passa a utilizar a interseccionalidade em seus estudos. Independente disso, parece que Safatle dá razão a Adorno, como se ele também não estivesse falando a partir de um lugar por mais que se pretenda universal.

Acho essa questão da "voz de ninguém" um tanto problemática porque parece negar o silenciamento histórico de grupos marginalizados. Mulheres negras (falarei a partir do meu lugar) tiveram seu acesso negado ao espaço acadêmico, por exemplo. Hoje, a partir de algumas políticas, o acesso melhorou, mas ainda está longe de ser justo. Fora isso, a epistemologia dominante nega a produção de conhecimento de mulheres negras. Em quatro anos e meio de graduação em Filosofia não estudei uma filósofa sequer. O que sei, tive que correr atrás. Os movimentos sociais surgem justamente porque há grupos que sequer foram alçados a condição de sujeito. E esses grupos devem ter esse direito. Não perceber essas desvantagens históricas é uma questão ética. Não dá para ser aliado sem isso. Homens brancos acadêmicos, professores de universidade pública, não precisam reivindicar direito a fala porque já possuem esse direito. Podem falar sobre o que quiserem, a questão é ter a percepção ética se devem ou não fazê-lo e como fazê-lo; de abrir espaço para quem não tem. Hoje virou moda pessoas de grupos privilegiados dizerem-se silenciadas, o que é um grande problema. Uma feminista negra pode até fazer uma careta e dizer que não quer ouvir um homem branco, mas que poder isso tem de afetar a vida dele? Nós não temos poder institucional para silenciar ninguém. Fora isso, é imprescindível que pessoas privilegiadas aprendam a ouvir; tão acostumadas a ter o direito de falar, sequer ouvem as vozes que dizem defender. Ouvir é primordial para que o diálogo se estabeleça. Romper com essa tentação de universalidade também.

Em "O segundo sexo, Beauvoir diz: "quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos é mantido numa situação de inferioridade, ele é de fato inferior; mas é sobre o alcance da palavra ser que precisamos entender-nos; a má fé consiste em dar-lhe um valor substancial quando tem o sentido dinâmico hegeliano: ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta. Sim, as mulheres, em seu conjunto, são hoje inferiores aos homens, isto é, sua situação oferece-lhes possibilidades menores". (BEAUVOIR, 1980, p. 18). Mulheres negras possuem uma situação em que as possibilidades são ainda menores(materialidade!), e sendo assim, nada mais justo que possamos pensar em saídas emancipatórias para isso, lutar para que elas possam ter direito a voz e melhores condições.
Bell hooks faz uma relação entre sujeito e objeto ao dizer que sujeitos são aqueles que possuem o direito de definir suas próprias realidades, estabelecer suas próprias identidades e nomear sua história e os objetos aqueles que serão definidos pelos sujeitos.(hooks 1989:42). Devemos ter o direito de definir nossas realidades, só assim, um dia, seremos capazes de transcendê-las. Beauvoir diz que primeiro é necessário afirmar-se mulher, tomar consciência da opressão, para aí sim sermos capazes de transcender essa situação. Ou seja, é necessário primeiramente demarcar esse lugar porque a opressão que me atinge vem a partir dele.
Grada Kilomba em Plantations memories – Episodes of everyday racism, diz:
“Esse livro pode ser concebido como um modo de “tornar-se um sujeito” porque nesses escritos eu procuro trazer a tona a realidade do racismo diário contado por mulheres negras baseado em suas subjetividades e próprias percepções.” (KILOMBA, 2002:12). 
Aimé Cesaire disse que “as duas maneiras de perder-se são: por segregação, sendo enquadrado na particularidade, ou por diluição no universal”. Não queremos ser enquadradas na particularidade ao reivindicar lugar de fala, mas de termos o direito de falar a partir da nossa realidade e de não sermos mais definidas por outro olhar.
A pesquisa feminista não tem somente por objetivo introduzir mulheres nas ciências, mas também possui o papel de tensionar e questionar o modo tradicional de se fazer ciência, propor novos modelos, mas principalmente, ter disposição epistemológica e política para rever a postura frente às pesquisas. Assumir a instabilidade do fazer científico, “subverter matrizes de pensamento, acolher a fluidez, numa área que tradicionalmente tentou estabelecer verdades duráveis”. (Louro, 2003: 146)
Possibilitar o deslocamento do pensamento hegemônico, a ressignificação das identidades sejam elas de raça, gênero dando espaço para a construção de novos lugares de fala tem-se mostrado cada vez mais urgente e necessário como forma de dar voz e visibilidade a sujeitos que foram considerados implícitos dentro dessa normatização hegemônica.( Ver em Mulheres negras e interseccionalidade).
É disso que estamos falando. Ou enfrentamos a realidade ou serão sempre os mesmos sujeitos que terão voz. Essa "voz de ninguém" é um tanto romântica, mas não é novidade que algumas pessoas de esquerda gostem de romantizar coisas, como a pobreza, por exemplo. Em vários DCE de universidade pública vemos isso. Mas só romantiza a pobreza quem nunca a viveu. Da mesma forma, só fala na "voz de ninguém" quem sempre teve voz. Deem o que é meu por direito.


* Djamila Ribeiro é mestranda em Filosofia Política na Unifesp e feminista negra. Escreve para o Escritório Feminista da Carta Capital.

Fonte: Facebook Djamila Ribeiro - publicado em 03/01/2016

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