O ESPELHO E A ALMA
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| Foto: Graça Bastos. Em Cabrobó-PE |
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"Homem sorrindo", de Gerard Bhengu
A “história de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens”. (Mia Couto, em Cada homem é uma raça – Ed. Caminho - 1990). Entretanto, a cada vez que lançamos o olhar sobre outros povos, principalmente aqueles que conhecemos muito pouco, temos a tendência de compara-los com a nossa própria cultura e também de usar, sobre eles, lentes voltadas as culturas norteamericana e europeias e, então, julga-los bárbaros ou medíocres porque não correspondem ao nosso ideal. Para isso há um nome: preconceito. Não aprendemos ainda a olhar o outro com vontade de compreender, aprender e apreender sua cultura e sabedoria.
A falta de um mínimo de conhecimento é tão grande que encontramos quem diga e, muito pior, escreva e publique que “A África é um pais....” e o restante da frase recuso-me a transcrever de tão absurda. Impossível absurdo maior? Não, não é. Encontramos também a “pérola” de grafar “áfrica”, assim mesmo, com letra minúscula em total desprezo por suas culturas milenares.
A África, continente formado pelos paises Marrocos, Argélia, Líbia, Egito, Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Guiné Bissau, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Maly, Burkina Faso, Gana, Togo, Benim, Níger, Chade, Sudão, Etiópia, Nigéria, Camarões, República Centro-Africana, Gabão, Congo, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia, Somália, Tanzânia, Angola, Zâmbia, Malawi, Moçambique, Zimbabwe, Namíbia, Botsuana, África do Sul, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Cabo Verde e República de Madagascar (perdoem-me os africanos e os geógrafos se esqueci de mencionar algum) é muito mais que a “terra de onde vieram os negros”. É o berço da humanidade. Seus povos chegaram ao uso do ferro sem, sequer, passarem pela idade do bronze, ao contrário dos europeus. É possuidora de inúmeros e valiosos saberes. Por tudo isso e muito mais, a mama África merece todo nosso respeito e admiração.
Uazedíua mama Áfrika! (Abençoada mãe África!).
Nádia P.Chaia (Sidewí)
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Jingoma, vozes da África
Nádia P.Chaia (Sidewí)
O som dos jingoma, num toque ritmado e contínuo, nem muito rápido e nem muito lento, ta ta ra ta tam tam tam... ta ta ra ta tam tam tam... vai, numa Casa de Angola, uma das muitas pequenas Áfricas existentes no Brasil, buscar memórias antiquíssimas, guardadas talvez no inconsciente, onde cânticos e danças encenam mitos e reverenciam ancestrais.
Lembrando os tempos em que os negros se reuniam para seus ritos no meio do mato, em clareiras, o chão do barracão, denominação dada ao espaço, é coberto de folhas. O cheiro das folhas, os cânticos, os gestos, criam como que uma ponte que vai ligando o presente ao passado; terras brasileiras a terras africanas antes da chegada dos colonizadores.
Os barracões, também chamados de roças, procuram reproduzir, dentro do possível, as estruturas sociais africanas. Assim o (a) dono(a) da casa, zelador(a) ou ainda outras tantas maneiras de designa-lo(a), representa a figura de um rei ou rainha africanos.
Formando uma roda em sentido anti-horário e guiados pelo zelador, entram no espaço destinado as danças os membros da comunidade e os amigos convidados para tal. Não é considerado um ato de boa educação entrar na roda para dançar sem que se tenha sido chamado pelo dono da casa. Tem início a festa.
Primeiro canta-se e dança-se em honra aos guardiões, aos andarilhos dos caminhos. Sempre cantando e dançando o zelador escolhe duas ou três pessoas, em geral duas mulheres entre as mais antigas na casa, e estas vão ao portão de entrada ofertar-lhes mavile e água. O mavile representa a fartura, o alimento e é entregue para que, satisfeitos, não atrapalhem o caminho de quem vem para a festa em paz e, por outro lado, não permitam a chegada de desordeiros. Já a água, sendo indispensável a vida, é considerada a bebida mais preciosa. É, também, um elemento purificador.
Quando aqueles que foram ao portão retornam, o cantador ou o(a) dono(a) da casa começa a cantar louvando mpemba que veio de Angola. Nesse ponto, se reproduz um dos mais belos mitos da cultura bantu. O(a) zelador(a)toma nas mãos uma vasilha contendo um pó branco de cheiro agradável que vai, ao ritmo dos jingoma, salpicando pelo salão. A seguir, ainda salpicando o pó, dirige-se ao portão onde deposita uma quantidade maior e retorna ao barracão. Ali, dirigindo-se ao centro, sopra para o alto o que sobrou do pó, formando uma nuvem esbranquiçada que logo se dissipa. Está, assim, representado o mito da criação.
Conta uma das inúmeras lendas bantu que quando Nzambi criou o mundo, depois de espalhar a vida sobre a terra com o seu hálito, pegou em suas mãos um pouco de mpemba e soprou para o alto criando, assim, as nuvens que até hoje enfeitam o céu e precipitam a chuva renovadora sobre a terra.
A festa segue adiante com muita alegria e animação e, um a um, vão sendo homenageados os ancestrais cujos feitos renderam-lhes o direito a tal honraria. Quando algum deles manifesta a sua presença é recebido com muita alegria e tratado com todo o respeito.
Terminado o último cântico, executada a última dança, todos são convidados a participar de uma refeição comunitária. Muitas vezes quando os últimos convidados se retiram o dia já vai raiando. Estão todos cansados mas ao mesmo tempo felizes: África e Brasil se abraçaram mais uma vez.
Uma das pilastras em que se apoiam as culturas negro-africanas é a crença na existência de um mundo paralelo a este em que vivemos. É o mundo invisível, que equivale ao mundo visível, habitado pelos espíritos. O som dos jingoma funciona como batidas nas portas de uma casa para que sejam abertas; como vozes que chamam os ancestrais para ouvirem os cânticos, receberem as honrarias e intercederem pelos vivos. São, ainda, as vozes da velha Mãe África preservadas até hoje.
Glossário
Jingoma ( kb.sing. ngoma) - tambores
Mavile (kb.) – denominação dada nas casas Angola/Congo a u’a mistura de farinha de mandioca com dendê, água ou mel
Mpemba (kb) – pó branco ritual, preparado uma única vez no ano, que recebe também o nome de Ngonga (gongá) por ser consagrado a uma divindade assim denominada. Essa divindade é a que traz a paz e a felicidade. Pemba é, também, o nome dado a um tipo de giz, que pode ser colorido ou não, nos rituais de umbanda.
Bantu – povos habitantes de grande parte do território africano, com línguas aparentadas e culturas afins. Primeiro grupo de negros a chegarem aos portos brasileiros sendo, por isso, responsáveis por grande parte de nossas heranças africanas.
Nzambi – (kb.kk) – Deus , o Criador de tudo.
Kb- kimbundu
Kk – kikongo.
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BEBER O MORTO
Expressão estranha para costume antigo
Nádia Chaia (Sidewi)
Antigamente, antes que as cidades crescessem tanto, que houvesse luz elétrica por toda parte, quando os defuntos eram velados em casa, na sala, caixão sobre a mesa de jantar, uma vela acesa em cada canto (não as luminárias em forma de vela de hoje em dia), pés voltados para a porta da rua, havia um costume que hoje só muito raramente encontramos e assim mesmo no interior, no sertão desse Brasil imenso: - beber o morto.
Quanto maior fosse a posição social do finado, mais aparato teria que ter o seu velório. Assim, não havia mãos a medir para dar conta de salgadinhos, bolos, cafés e licores servidos a todos os que participavam da cerimônia. Carpideiras eram contratadas para chorar copiosamente enquanto exaltavam as muitas qualidades do morto, mesmo que não fossem tantas assim. O ritual durava cerca de 24 horas.
Nas famílias um pouco menos abastadas serviam café, bolo e broa de milho. Os licores eram substituídos pela pinga de alambique e cortavam-se as despesas com as carpideiras. O pranteamento ficava mesmo por conta dos parentes e amigos.
Nas classes mais pobres, que em geral viviam nas periferias ou nos morros em habitações de pouco ou nenhum conforto, o velório era chamado de “gurufim” (expressão que não sei traduzir) e, além do café normalmente direcionado para as mulheres, servia-se alguma coisa de sal (de acordo com as possibilidades da família) e cachaça de litro. Aqueles que adormeciam, vencidos pelo cansaço e pela cachaça, eram acordados pelos demais com o aviso: “cuidado, fulano (diziam o nome do morto) vem te buscar”. Os participantes do “gurufim” podiam não saber porque o faziam, mas, ao acordar quem adormecia, repetiam procedimentos de algumas culturas tradicionais africanas, onde não era permitido dormir durante os ritos funerais.
No interior era comum convidar as pessoas para “beber o morto”, ou seja, tomar uma bebida, geralmente pinga, em memória do falecido.
De comum aos quatro tipos de velório mencionados encontramos o hábito de serem servidas bebidas alcoólicas. O que passava e provavelmente ainda passa despercebido é o fato de ser essa uma herança africana.
Entre alguns povos bantu, em sua cultura tradicional, quando morria alguém da comunidade, fazia parte dos ritos funerais a reunião das pessoas da aldeia, de parentes que morassem em outros lugares, amigos, etc em torno do defunto e ali fazerem uma refeição comunitária e tomarem marufo (espécie de vinho) . O último grande rito de passagem é o funeral e quanto maior a importância do morto dentro do grupo, mais complexos e longos os ritos, estendendo-se por dias. Neste período havia uma série de tabus a serem seguidos, dentre eles o de não pronunciar o nome do morto e não manter relações sexuais. Estas só seriam permitidas quando terminassem todos os ritos funerais e após um banho lustral.. Como acreditavam que as almas dos mortos habitavam um mundo paralelo no interior da terra, eram colocadas oferendas de alimentos em volta das sepulturas vertidos nove goles de bebida no chão, para satisfazê-las.
É muito comum, em alguns pontos do Brasil, ver-se alguém jogar um pouco de bebida no chão, antes de ingeri-la. Mesmo muitas vezes não sabendo o porque do gesto, a herança africana fala mais alto.
Ainda hoje, quando morre um membro de um grupo de culto afro-brasileiro, é comum após o enterro, as pessoas se juntarem em um bar para tomar um copo de cerveja, vertendo antes um gole no chão, para “lavar o pé”, ou seja, afastar a morte de seus caminhos “bebendo o morto”. Vale lembrar também que, dependendo da graduação e importância do finado dentro do culto, os ritos funerais podem levar dias e não se pode deixar de oferecer a comida e a bebida.
É a África viva no Brasil.
Nádia P. Chaia (Sidewí) – Pesquisadora de Cultura Afro; Africanidade e temáticas Afro-Brasileiras.
Ilustração: Luis Gustavo, 17 anos,natural de Maricá/RJ., estudante de pré-vestibular. Concluiu o 2º grau no Centro Educacional Joana Benedicta Rangel, Maricá/RJ. Aluno de Mestre Dico, conhecido Mestre de Capoeira, de Maricá, atualmente é instrutor do Espaço Cultural Porta Aberta. É ex-morador do bairro do Caju, atualmente reside no Centro da cidade de Maricá/RJ.
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QUILENGUE – Aquarela de Francisco Gomes de Amorim
“A leitura é um dos meios mais eficazes de desenvolvimento sistemático da linguagem e da personalidade”. Richard Bamberger – “Como incentivar a leitura” – São Paulo/SP. Cultrix/MEC. 1977
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