Maricá/RJ,
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O ESPELHO E A ALMA

 Nádia (Sidewí) Chaia

Foto: Graça Bastos. Em Cabrobó-PE

De acordo com Óscar Ribas (Ilundo, 1989), existe a crença em Angola de que quando alguém morre a alma não abandona o lugar onde o corpo é enterrado e segue, junto com ele, sentada sobre o caixão, de costas para o cortejo, com as pernas esticadas e os braços repousados sobre elas, com a cabeça balançado levemente de um lado para outro. Para que ela seja vista, é necessário colocar-se a frente do cortejo, com um espelho onde será gravada a sua imagem, sem, entretanto, despertar a atenção da alma para que esta não o arrebate de imediato. Durante algum tempo permanece sentada  sobre o túmulo, depois adentra na terra passando a “viver” no mundo invisível. Sempre que é necessário consulta-la, os quimbandas especializados realizam um ritual que “levanta a alma” para que a mesma se comunique. Ainda segundo o autor citado, “A alma, após a morte, acompanha o corpo e com ele se fixa no seio da terra. Entretanto, dá fé do que fazemos, e quando lhe apetece vem à superfície, preferencialmente de noite, pois a luz a incomoda. E quando anda, seus pés não pisam o chão: caminham no ar, a uns cinquenta centímetros de altura, mas deixando ouvir o ruído de seus passos arrastados.”
            Façamos uma viagem no tempo e no espaço agora e cheguemos ao Brasil e a alguns de seus usos e costumes em casas de cultos afro-brasileiros.
            Até que completem, no mínimo, três meses de iniciados nas roças de santo, como também são denominadas as casas de candomblé, os noviços andam de branco, com a cabeça coberta e jamais se olham num espelho. Salvo por questões de trabalho ou saúde, quando alguns rituais são realizados para que se consiga permissão antecipada, até completar um ano de iniciação o noviço não entrará em hospitais ou cemitérios. Nos três primeiros meses não elevarão o tom de voz, não olharão diretamente nos olhos de seus mais velhos ou pessoas estranhas. Não andarão sozinhos depois de meia noite, terão sempre, em caso de necessidade, de ser acompanhados por um mais velho. Não pararão em bares ou encruzilhadas. Aprenderão uma nova maneira de se comportar de modo a manter as tradições e não ofender ou desrespeitar os ancestrais.
Se observarmos com alguma atenção, notaremos que as proibições que foram mencionadas são uma adaptação a realidade brasileira do que havia nas culturas tradicionais de nossa Mãe África. 

                              Nádia (Sidewí) Chaia -   Pesquisadora de culturas Bantu

CÍRCULO SAGRADO



                                                                                                           Nádia Chaia (Sidewí)


        Na grande maioria das manifestações religiosas e culturais de raízes africanas podemos observar que tudo é feito em círculo, chamado habitualmente pelos assistentes e participantes de roda; assim temos a roda de samba, roda de jongo, roda de capoeira, roda de candomblé, roda de pagode e por aí vai. Prestando atenção, notamos que em todas as rodas onde se presta reverência aos ancestrais, como por exemplo, citaremos as rodas de capoeira, de jongo e de candomblé, os movimentos de formação das rodas, as danças e todo o gestual são feitos sempre no sentido contrário ao do relógio. Quando, em determinados rituais, as pessoas se reunem para refeições comunitárias onde também os ancestrais e antepassados são convidados a participar, os pratos, ao final, são passados de mão em mão para serem recolhidos em sentido anti-horário.
        O círculo é uma figura que junta o início ao fim sem que se possa precisar exatamente onde começa um e termina o outro, ambos se fundem. Nas culturas tradicionais africanas de origem bantu, há uma crença inabalável na existência de um duplo do mundo em que vivemos, ou seja, há o mundo visível em que habitamos e outro, o duplo, que não podemos ver. Os antepassados, os ancestrais e os mortos comuns habitam o mundo invisível, isto é, “vivem” lá e de lá continuam a influir na vida e no destino daqueles que ainda estão no mundo visível. Uma vez que nosso tempo é marcado em função do sol, desde o nascimento pela manhã ao poente no final do dia (da esquerda para a direita), para se entrar em contato com os ancestrais é necessário que se faça o percurso inverso, da direita para a esquerda, pois o tempo e a “realidade” deles tem outra medida, outra dimensão.
        O círculo sagrado, ou roda, é uma das portas que permitem o contato entre os vivos e os que, não mais por aqui, não deixam de estar “vivos”.
        Quando se procurar conhecer e entender, deixa-se de temer e passa-se a respeitar as raízes e heranças recebidas.


Nádia Chaia (Sidewí) - Pesquisadora de culturas bantu e afro-brasileiras.

África de todas as cores, sons e... sabores


CAÇADOR, CAMINHO,  CONSCIÊNCIA
por  Nádia (Sidewí) Chaia




O que é a consciência senão o caminho que leva a reflexão?

Observando um escultura de estilo maconde, adquirida na “Feira da ladra” – Lisboa – em 2003, reparei que a figura, uma representação de um caçador, traz junto ao corpo, apoiada na mão esquerda, a pata do animal caçado. Tendo uma lança na mão direita e o corpo esguio coberto por uma pele, a estatueta fez-me pensar na agilidade e leveza de movimentos necessárias para que o caçador nativo atingisse seu intento. Mergulhada nesse pensamento, fui recuando no tempo e vieram-me a memória rituais que eram executados pelos antigos caçadores, desde muito antes do branco colonizador se instalar nas costas africanas. Os homens saíam para a caçada em grupos, sendo o mais experiente  o responsável por todos os demais. Era o orientador. Terminada a empreitada, a caça era transportada para a aldeia e lá eram divididas, de modo que todos recebessem seu naco de carne.
Além da carne a que fazia jus, o responsável recebia, também, a pata do animal, que ia depositar na beira do caminho, para que nunca se perdesse ou deixasse de encontrar, em segurança, o rastro da caça, garantindo, dessa forma, um bem estar ao seu povo. A homenagem era prestada aos antepassados caçadores, aqueles que bem antes haviam trilhado os caminhos que conduziam a uma boa caçada.

Nas religiões afro-brasileiras, sempre que um animal é sacrificado, as carnes são cozidas de maneira apropriada e são consumidas numa refeição comunitária, da qual participam todos os que estiverem na casa, exceto algumas partes e dentre elas as patas, que são oferecidas ao ancestral homenageado.As homenagens são realizadas para pedir alguma ajuda, ou agradecer o auxilio recebido.
Nas mais diversas manifestações culturais de raízes africanas, podemos observar que tudo começa com a procura e determinação do caminho. Veremos a seguir alguns exemplos: capoeira  - quando os capoeiristas se abaixam em frente aos atabaques, estão prestando reverência aos ancestrais que determinarão o caminho, de paz e confraternização se for um jogo, uma brincadeira como também é popularmente conhecida a roda de capoeira, ou de vida e de morte se for uma luta, como ocorreram muitas vezes no Brasil colonial e mesmo mais tarde, na velha Bahia, quando ainda se fazia o jogo da navalha e brabos desafetos resolviam ali suas pendengas;
jongo – hoje em dia quase não se vê mais os velhos mestres jongueiros, que preparavam seus jingoma (plural de ngoma) a partir de um pedaço selecionado do tronco de uma árvore, derrubada na lua certa e na hora propícia e escavavam e esticavam o couro de forma a obter uma sonoridade única, os tambores hoje, via de regra, são comprados prontos, são industrializados. Os rituais realizados antes que a roda se forme são dirigidos aos antepassados, para pedir-lhes licença e caminhos de paz e confraternização durante a roda e que, ao final, cada um possa seguir em paz para as suas casas;
umbanda – a umbanda começa suas sessões, como habitualmente são denominadas suas reuniões de culto, com a queima, em brasas de carvão, de incenso e uma mistura de determinadas ervas (defumador), envolvendo todo o recinto numa fumaça perfumada, acompanhada de cânticos propiciatórios que são uma espécie de limpeza dos caminhos, uma forma de pedir bons caminhos para os  trabalhos e para os que lá estão;
candomblé – sempre inicia seus rituais com uma oferenda ao guardião, ao andarilho dos caminhos, para que este, satisfeito com a homenagem, permita que os caminhos sejam bons, prósperos, de paz e harmonia para a cerimônia e para os participantes.

Quando os colonizadores chegaram as costas da África, acharam que os povos que lá viviam eram por demais primitivos e bárbaros e que, portanto, tinham o direito e, mais do isso, a obrigação de submete-los ao seu domínio, pois eles sim eram civilizados. Acharam por demais grotescas e sangrentas as guerras que um povo travava com outro, lutando com as mesmas armas: lanças, facões, etc, mas acharam normal e justo subjuga-los a poder da pólvora, das armas de fogo contra as quais os nativos não tinham defesa. Queriam converte-los a qualquer custo, para salvar-lhes as almas. Achavam normal e justo incentivar as guerras, para que os vencidos capturados fossem a eles vendidos, instituindo e incentivando um comércio antes desconhecido por eles. É certo que entre os povos africanos existia a escravidão, assim como existiu no mundo todo, mas lá era um outro sistema , não havia castigos físicos e sim trabalho. Os escravos eram “integrados” ao povo vencendor. Encher os porões dos tumbeiros com “peças” para serem comercializadas em outras terras era uma atividade normal, lucrativa e civilizada. Quando um chefe bantu morria e o seu coração era comido pelo seu sucessor, na crença de que assim obteria para si a força, a coragem, enfim as qualidades de seu antecessor, o colonizador considerava a tradição como um ato de babárie sem par.
Como creio que a consciência só pode ser alcançada pelo caminho da reflexão, eu pergunto a mim mesma: - Quem na verdade era o bárbaro, o negro que escolhido rei comia o coração de seu antecessor no trono, acreditando estar recebendo suas qualidades ou o colonizador “civilizado” que comprava e vendia gente e que mandava enforcar, esquartejar, salgar e espalhar pelos caminhos seus opositores, para que servissem de exemplo, como tantas e tantas vezes aconteceu em terras do Brasil colônia?
Acredito que muita gente não concorde comigo, afinal sei que o assunto é polêmico.
Enquanto não se aprender que antes de qualquer coisa, qualquer reivindicação, é necessário pesquisar, saber quem foram os antepassados, seus costumes, os caminhos trilhados, o porque de tantas e belas heranças negras que temos. Sentir orgulho das raízes, conhecer a própria história, pode evitar que um movimento em que alguns poucos, no início, lutaram pelo bem estar e pelos interesses de muitos se transforme em um movimento em que muitos, sem o perceber, acabem abrindo espaço para que poucos se aproveitem para atender aos seus interesses pessoais. 
Uazedíua soba Zumbi. ( Abençoado rei Zumbi).                                               

* Nádia (Sidewí) Chaia - Pesquisadora de Cultura Afro; Africanidade e temáticas Afro-Brasileiras.

NO TEMPO EM QUE OS BICHOS FALAVAM


                                                        Nádia(Sidewí)Chaia


Era eu ainda menina quando, pela tardinha, banho tomado, cabelos penteados por minha mãe, sentava-me ao lado do rádio (naquele tempo aparelho de TV só em casas muito abastadas) para ouvir as deliciosas “Histórias do Tio Janjão” que, invariavelmente, começavam assim: “No tempo em que os bichos falavam...” Imediatamente a cabecinha voava a tempos muito remotos e conseguia “ver” a história contada. É exatamente essa viagem que quero fazer para contar uma história...
No tempo em que os bichos falavam, Kulaia¹ e Simbi², duas meninas como tantas outras na aldeia, sentavam-se com as demais crianças ,em círculo, tendo a fogueira no meio, para aprender com as histórias contadas pelos makota³.
Numa noite em que dieji(4)  competia em brilho com o fogo crepitante, vovô Nuani(5) resolveu contar a história de Kabila, o pastor.

        Quando o dia findava e a escuridão da noite vinha chegando, Kabila reunia o gado no entorno da aldeia, no espaço existente entre o povoado e a floresta, e ia descansar em sua kubata(6), para retornar ao pastoreio no dia seguinte, ao nascer do sol. Entretanto, quando o dia amanhecia Kabila, invariavelmente, encontrava o gado disperso pelo mato, o que fazia com que o pastor tivesse um trabalhão para reunir o rebanho e leva-lo a pastar. Já muito intrigado e disposto a descobrir o que estava acontecendo, resolveu que passaria a noite junto ao gado. Assim, preparou-se para a vigília. Lá pelas tantas da noite observou um movimento estranho no mato e o nervosismo tomar conta do rebanho. Escondeu-se e ficou prestando atenção ao movimento e ao burburinho que vinha do mato; foi aí que percebeu a chegada dos kazumbi(7) que vinham assustar os animais. Descoberto o mistério, Kabila ficou sem saber o que fazer; como livrar os bichos dos kazumbi?  Estava assim pensando quando reparou que, quando algum animal levantava a cauda para defecar, os kazumbi que estivessem próximos fugiam apavorados para a floresta. Esperou o dia clarear e sacrificou um boi e um cavalo, dos quais cortou o rabo. A carne foi destinada ao consumo da aldeia numa grande refeição comunitária.
        Com o rabo do boi preparou uma espécie de abano que, quando balançado para cima e para baixo, imitava o movimento do animal ao defecar. Com o rabo do cavalo preparou outro abano com o qual presenteou sua companheira, Kaiango Muenhu.
        Quando a noite chegou Kabila e Kaiango Muenhu já estavam escondidos, cada um de um lado, com os abanos nas mãos, esperando que os kazumbi viessem espalhar o gado. Esperaram até que eles se aproximassem bem do rebanho. Assim que chegaram ao ponto desejado Kabila e Kaiango correram ao encontro deles, cada qual com o seu mukila(8) balançando como fazia o gado. Os kazumbi fugiram em desabalada corrida para a floresta e não voltaram mais.
        Em razão de terem livrado a aldeia do ataque dos kazumbi, Kabila e Kaiango Muenhu foram reverenciados por todos e passaram a usar, Kabila o mukila ngombe(9)  e Kaiango Muenhu o mukila kabalu(10) como seus símbolos e armas. Quando morreram passaram a condição de ancestrais sagrados.
        Assim vovô Nuani acabou de contar a história e foram todos dormir.

        Quando os negros africanos foram trazidos para o Brasil vieram com eles suas crenças, seus mitos, suas lendas, seus cânticos, suas tradições, enfim, sua cultura que, recriada ou não, sobreviveu nesta terra. Até os dias de hoje, nas casas de culto afro-brasileiras de raiz bantu (Angola/Congo), quando nas festas cantam as cantigas que louvam os feitos dos ancestrais, com danças que revivem os fatos  cantados, se há entre os presentes alguém que seja seu “filho”, tanto Kabila quanto Kaiango se apresentam para dançar, cada um com seu mukila, demonstrando que assim espantaram os kazumbi  e que ainda o fazem se for necessário. É mais uma demonstração de que a África ancestral revive no Brasil.



Glossário: (língua Kimbundu)


1- Vida
2- Fonte
3- Anciões
4- Luar
5- Defensor
6- Casa
7- Espíritos
8- Cauda, rabo
9- Rabo de boi
10- Rabo de cavalo  

ÁFRICA DE TODAS AS CORES, SONS E...SABORES

EU ME LEVANTO!


Há momentos na vida em que um som, um gesto, uma atitude, um cheiro ou um olhar podem levar nosso espírito a fazer, em um único segundo, uma viagem de regresso ao passado, a reviver situações ou lembrar de outras tantas que não vivemos, num turbilhão de emoções. Assim foi com “Negro Olhar”.
Ao fundo, na voz de Ruth de Sousa, trechos de “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus. Forte, doído, marcante... um diário da miséria, da luta: um misto de desespero e esperança. Em cena, três mulheres e um homem apresentam, com maestria, textos de própria autoria com os de outros tantos autores, misturando-os de tal forma que fica difícil saber onde termina um e começa o outro, envolvendo a platéia completamente.
Repentinamente uma das mulheres, em um rompante que mais parecia o salto de um felino, levanta-se e grita: -“EU ME LEVANTO”! E com tal determinação e altivez o fez que, como num passe de mágica, reportei-me ao século XVII e senti-me frente a frente com uma personagem de grande importância na história angolana, tão grande que virou um mito: a rainha Jinga. Tida como figura sagaz, guerreira, determinada, dotada de grande percepção estratégica, muito hábil em negociações. Altiva e indomável, embora estrategicamente tenha feito acordos que pareciam ter ela se submetido. Foi “uma das mais significativas e influentes figuras políticas do século XVII” (Parreira, Adriano – Economia e Sociedade em Angola no tempo da rainha Jinga,1997,Lisboa).
Conta uma das muitas histórias sobre a rainha Jinga que,chamada a uma reunião com o representante da coroa portuguesa em Angola, o governador João Correia de Souza, não havia uma cadeira para que ela se sentasse. Sem se perturbar, chamou uma escrava que colocou-se de quatro e sentou-se calmamente em suas costas. Terminado o encontro levantou-se e saiu deixando a escrava no mesmo lugar em que estava. Quando lhe perguntaram se não havia esquecido da escrava responde que não, pois não costumava carregar com ela a cadeira em que se sentava.
Aos poucos retornei ao presente, a tempo de ouvir os demais atores repetindo, em tom mais baixo, eu me levanto... eu me levanto... eu me levanto... Emocionados levanta-mo-nos todos para aplaudir...de pé. Jinga estava viva no Brasil!
Bendito olhar... negro!


Nádia (Sidewí) Chaia - Pesquisadora de Cultura Afro; Africanidade e temáticas Afro-Brasileiras.
Foto: Mafchaia

África de todas as cores, sons e... sabores


PRECONCEITO

"Homem sorrindo", de Gerard Bhengu


A “história de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens”. (Mia Couto, em Cada homem é uma raça – Ed. Caminho - 1990). Entretanto, a cada vez que lançamos o olhar sobre outros povos, principalmente aqueles que conhecemos muito pouco, temos a tendência de compara-los com a nossa própria cultura e também de usar, sobre eles, lentes voltadas as culturas norteamericana e europeias e, então, julga-los bárbaros ou medíocres porque não correspondem ao nosso ideal. Para isso há um nome: preconceito. Não aprendemos ainda a olhar o outro com vontade de compreender, aprender e apreender sua cultura e sabedoria.

A falta de um mínimo de conhecimento é tão grande que encontramos quem diga e, muito pior, escreva e publique que “A África é um pais....” e o restante da frase recuso-me a transcrever de tão absurda. Impossível absurdo maior? Não, não é. Encontramos também a “pérola” de grafar “áfrica”, assim mesmo, com letra minúscula em total desprezo por suas culturas milenares.

A África, continente formado pelos paises Marrocos, Argélia, Líbia, Egito, Mauritânia, Senegal, Gâmbia, Guiné Bissau, Serra Leoa, Libéria, Costa do Marfim, Maly, Burkina Faso, Gana, Togo, Benim, Níger, Chade, Sudão, Etiópia, Nigéria, Camarões, República Centro-Africana, Gabão, Congo, República Democrática do Congo, Uganda, Quênia, Somália, Tanzânia, Angola, Zâmbia, Malawi, Moçambique, Zimbabwe, Namíbia, Botsuana, África do Sul, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Cabo Verde e República de Madagascar (perdoem-me os africanos e os geógrafos se esqueci de mencionar algum) é muito mais que a “terra de onde vieram os negros”. É o berço da humanidade. Seus povos chegaram ao uso do ferro sem, sequer, passarem pela idade do bronze, ao contrário dos europeus. É possuidora de inúmeros e valiosos saberes. Por tudo isso e muito mais, a mama África merece todo nosso respeito e admiração.
Uazedíua mama Áfrika! (Abençoada mãe África!).


Nádia P.Chaia (Sidewí)

África de todas as cores, sons e... sabores

Junho de 2009
África de todas as cores, sons e... sabores



Jingoma, vozes da África

Nádia P.Chaia (Sidewí)


O som dos jingoma, num toque ritmado e contínuo, nem muito rápido e nem muito lento, ta ta ra ta tam tam tam... ta ta ra ta tam tam tam... vai, numa Casa de Angola, uma das muitas pequenas Áfricas existentes no Brasil, buscar memórias antiquíssimas, guardadas talvez no inconsciente, onde cânticos e danças encenam mitos e reverenciam ancestrais.
Lembrando os tempos em que os negros se reuniam para seus ritos no meio do mato, em clareiras, o chão do barracão, denominação dada ao espaço, é coberto de folhas. O cheiro das folhas, os cânticos, os gestos, criam como que uma ponte que vai ligando o presente ao passado; terras brasileiras a terras africanas antes da chegada dos colonizadores.
Os barracões, também chamados de roças, procuram reproduzir, dentro do possível, as estruturas sociais africanas. Assim o (a) dono(a) da casa, zelador(a) ou ainda outras tantas maneiras de designa-lo(a), representa a figura de um rei ou rainha africanos.
Formando uma roda em sentido anti-horário e guiados pelo zelador, entram no espaço destinado as danças os membros da comunidade e os amigos convidados para tal. Não é considerado um ato de boa educação entrar na roda para dançar sem que se tenha sido chamado pelo dono da casa. Tem início a festa.
Primeiro canta-se e dança-se em honra aos guardiões, aos andarilhos dos caminhos. Sempre cantando e dançando o zelador escolhe duas ou três pessoas, em geral duas mulheres entre as mais antigas na casa, e estas vão ao portão de entrada ofertar-lhes mavile e água. O mavile representa a fartura, o alimento e é entregue para que, satisfeitos, não atrapalhem o caminho de quem vem para a festa em paz e, por outro lado, não permitam a chegada de desordeiros. Já a água, sendo indispensável a vida, é considerada a bebida mais preciosa. É, também, um elemento purificador.
Quando aqueles que foram ao portão retornam, o cantador ou o(a) dono(a) da casa começa a cantar louvando mpemba que veio de Angola. Nesse ponto, se reproduz um dos mais belos mitos da cultura bantu. O(a) zelador(a)toma nas mãos uma vasilha contendo um pó branco de cheiro agradável que vai, ao ritmo dos jingoma, salpicando pelo salão. A seguir, ainda salpicando o pó, dirige-se ao portão onde deposita uma quantidade maior e retorna ao barracão. Ali, dirigindo-se ao centro, sopra para o alto o que sobrou do pó, formando uma nuvem esbranquiçada que logo se dissipa. Está, assim, representado o mito da criação.
Conta uma das inúmeras lendas bantu que quando Nzambi criou o mundo, depois de espalhar a vida sobre a terra com o seu hálito, pegou em suas mãos um pouco de mpemba e soprou para o alto criando, assim, as nuvens que até hoje enfeitam o céu e precipitam a chuva renovadora sobre a terra.
A festa segue adiante com muita alegria e animação e, um a um, vão sendo homenageados os ancestrais cujos feitos renderam-lhes o direito a tal honraria. Quando algum deles manifesta a sua presença é recebido com muita alegria e tratado com todo o respeito.
Terminado o último cântico, executada a última dança, todos são convidados a participar de uma refeição comunitária. Muitas vezes quando os últimos convidados se retiram o dia já vai raiando. Estão todos cansados mas ao mesmo tempo felizes: África e Brasil se abraçaram mais uma vez.
Uma das pilastras em que se apoiam as culturas negro-africanas é a crença na existência de um mundo paralelo a este em que vivemos. É o mundo invisível, que equivale ao mundo visível, habitado pelos espíritos. O som dos jingoma funciona como batidas nas portas de uma casa para que sejam abertas; como vozes que chamam os ancestrais para ouvirem os cânticos, receberem as honrarias e intercederem pelos vivos. São, ainda, as vozes da velha Mãe África preservadas até hoje.


Glossário
Jingoma ( kb.sing. ngoma) - tambores

Mavile (kb.) – denominação dada nas casas Angola/Congo a u’a mistura de farinha de mandioca com dendê, água ou mel

Mpemba (kb) – pó branco ritual, preparado uma única vez no ano, que recebe também o nome de Ngonga (gongá) por ser consagrado a uma divindade assim denominada. Essa divindade é a que traz a paz e a felicidade. Pemba é, também, o nome dado a um tipo de giz, que pode ser colorido ou não, nos rituais de umbanda.

Bantu – povos habitantes de grande parte do território africano, com línguas aparentadas e culturas afins. Primeiro grupo de negros a chegarem aos portos brasileiros sendo, por isso, responsáveis por grande parte de nossas heranças africanas.

Nzambi – (kb.kk) – Deus , o Criador de tudo.

Kb- kimbundu
Kk – kikongo.

África de todas as cores, sons e... sabores




BEBER O MORTO
Expressão estranha para costume antigo

Nádia Chaia (Sidewi)




Antigamente, antes que as cidades crescessem tanto, que houvesse luz elétrica por toda parte, quando os defuntos eram velados em casa, na sala, caixão sobre a mesa de jantar, uma vela acesa em cada canto (não as luminárias em forma de vela de hoje em dia), pés voltados para a porta da rua, havia um costume que hoje só muito raramente encontramos e assim mesmo no interior, no sertão desse Brasil imenso: - beber o morto.
Quanto maior fosse a posição social do finado, mais aparato teria que ter o seu velório. Assim, não havia mãos a medir para dar conta de salgadinhos, bolos, cafés e licores servidos a todos os que participavam da cerimônia. Carpideiras eram contratadas para chorar copiosamente enquanto exaltavam as muitas qualidades do morto, mesmo que não fossem tantas assim. O ritual durava cerca de 24 horas.
Nas famílias um pouco menos abastadas serviam café, bolo e broa de milho. Os licores eram substituídos pela pinga de alambique e cortavam-se as despesas com as carpideiras. O pranteamento ficava mesmo por conta dos parentes e amigos.
Nas classes mais pobres, que em geral viviam nas periferias ou nos morros em habitações de pouco ou nenhum conforto, o velório era chamado de “gurufim” (expressão que não sei traduzir) e, além do café normalmente direcionado para as mulheres, servia-se alguma coisa de sal (de acordo com as possibilidades da família) e cachaça de litro. Aqueles que adormeciam, vencidos pelo cansaço e pela cachaça, eram acordados pelos demais com o aviso: “cuidado, fulano (diziam o nome do morto) vem te buscar”. Os participantes do “gurufim” podiam não saber porque o faziam, mas, ao acordar quem adormecia, repetiam procedimentos de algumas culturas tradicionais africanas, onde não era permitido dormir durante os ritos funerais.
No interior era comum convidar as pessoas para “beber o morto”, ou seja, tomar uma bebida, geralmente pinga, em memória do falecido.
De comum aos quatro tipos de velório mencionados encontramos o hábito de serem servidas bebidas alcoólicas. O que passava e provavelmente ainda passa despercebido é o fato de ser essa uma herança africana.
Entre alguns povos bantu, em sua cultura tradicional, quando morria alguém da comunidade, fazia parte dos ritos funerais a reunião das pessoas da aldeia, de parentes que morassem em outros lugares, amigos, etc em torno do defunto e ali fazerem uma refeição comunitária e tomarem marufo (espécie de vinho) . O último grande rito de passagem é o funeral e quanto maior a importância do morto dentro do grupo, mais complexos e longos os ritos, estendendo-se por dias. Neste período havia uma série de tabus a serem seguidos, dentre eles o de não pronunciar o nome do morto e não manter relações sexuais. Estas só seriam permitidas quando terminassem todos os ritos funerais e após um banho lustral.. Como acreditavam que as almas dos mortos habitavam um mundo paralelo no interior da terra, eram colocadas oferendas de alimentos em volta das sepulturas vertidos nove goles de bebida no chão, para satisfazê-las.
É muito comum, em alguns pontos do Brasil, ver-se alguém jogar um pouco de bebida no chão, antes de ingeri-la. Mesmo muitas vezes não sabendo o porque do gesto, a herança africana fala mais alto.
Ainda hoje, quando morre um membro de um grupo de culto afro-brasileiro, é comum após o enterro, as pessoas se juntarem em um bar para tomar um copo de cerveja, vertendo antes um gole no chão, para “lavar o pé”, ou seja, afastar a morte de seus caminhos “bebendo o morto”. Vale lembrar também que, dependendo da graduação e importância do finado dentro do culto, os ritos funerais podem levar dias e não se pode deixar de oferecer a comida e a bebida.
É a África viva no Brasil.

Nádia P. Chaia (Sidewí) – Pesquisadora de Cultura Afro; Africanidade e temáticas Afro-Brasileiras.

Ilustração: Luis Gustavo, 17 anos,natural de Maricá/RJ., estudante de pré-vestibular. Concluiu o 2º grau no Centro Educacional Joana Benedicta Rangel, Maricá/RJ. Aluno de Mestre Dico, conhecido Mestre de Capoeira, de Maricá, atualmente é instrutor do Espaço Cultural Porta Aberta. É ex-morador do bairro do Caju, atualmente reside no Centro da cidade de Maricá/RJ.


África de todas as cores, sons e ... sabores




A luz forte da bela manhã de outono e o barulho do mar batendo vigoroso na praia fizeram-me lembrar de um tempo que não vivi e d’uma viagem que não fiz. Paradoxo? Com toda certeza.
Sonho ou imaginação não me importa, mas guardo comigo a lembrança do amanhecer dourado nas savanas, das flores e espinhos das rubras acácias, do tom acinzentado dos elefantes que, guiados pela matriarca, refazem o caminho percorrido a séculos na eterna busca de alimento e água. Lembro-me ainda do tom entre o dourado e o avermelhado das leoas ensinando os seus filhotes a caçar, da corrida desenfreada dos gnus em fuga, das palancas, dos bisões, dos macacos nas florestas, dos pássaros multicoloridos soltando os mais diversos sons. Uma verdadeira orquestra.
O coração bate mais forte ao reconhecer a discreta altivez do olhar e do porte do jovem quilengue que os olhos atentos e os traços suaves e precisos de Francisco Amorim captaram com perfeição em sua aquarela. Recordo as mulheres envoltas em seus panos coloridos, os filhos presos às suas costas, sorrisos plenos de dentes alvos mostrando a alegria que é a maternidade para a mulher africana, pele negra luzidia, braços ao mesmo tempo suaves e fortes no manejo do pilão transformando grãos em alimentos. Navego pelo Cuanza, observo oleiras no Dundo, rendo preito às Ianda (espíritos das águas) do rio Dande, na província do Bengo – norte de Angola.
Vejo o menino moçambicano jogando para o alto o seu dente-de-leite recém caído, devolvendo-o a Nzambi pois já não precisa dele.
Começa a entardecer e o céu, até então de um azul deslumbrante, vai ficando rubro no horizonte, onde o sol se põe, para que o negro da noite assuma o seu lugar. Mas a noite africana não perde o brilho; dieji, tetembua e tetembuka (lua, estrela e pirilampo) não permitem.
Os sons das noites africanas me soam conhecidos, os batuques, as cantigas, muitas palavras das línguas tradicionais me reportam ao Brasil.
Os sabores... o dendê, a pimenta, as favas de cheiro...
Onde fui buscar tantas lembranças? Talvez em minhas memórias ancestrais porque tenho o orgulho e a sorte de ser, como todo brasileiro, produto da mistura de todas as cores, todas as etnias, todas as culturas que formam o nosso país.
Reconhecer e valorizar as raízes faz pisar mais firme o solo.

Nádia P. Chaia (Sidewí) – Pesquisadora de Cultura Afro; Africanidade e temáticas Afro-Brasileiras.

QUILENGUE – Aquarela de Francisco Gomes de Amorim

“A leitura é um dos meios mais eficazes de desenvolvimento sistemático da linguagem e da personalidade”. Richard Bamberger – “Como incentivar a leitura” – São Paulo/SP. Cultrix/MEC. 1977

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